(in)delicadeza de amar.

Páginas

sexta-feira, 30 de setembro de 2011



Menina disfarçada. Da alma bonita, do sorriso bobo, do andar ritmado, das palavras fáceis, do diálogo envergonhado, das bochechas coradas. Agora não passa de rascunho de um projeto anterior - se tornar um ser humano que não se importa, que não cora, que não sente e que mantém o coração inteiro, bem inteirinho, e guardado sem marca nenhuma dentro do peito. Menina que acha que passando batom vermelho na boca e usando aquele vestido vermelho pode se tornar uma pessoa diferente. Puro engano. O que o sorriso malicioso esconde, os olhos revelam. O que o vestido deixa à mostra, o leve corar resistente das bochechas nega. Contesta. Porque ela não é e nunca foi uma mulher fatal, como quis deixar parecer - não passa, na verdade, de uma menina. Frágil. Mas tem, porém, entretanto, todavia e embora - pois sempre gostou de contrariar a tudo e a todos - a mania de fingir ser quem nem é. Esse salto de dez centímetros que a deixa quase maior do que sua vontade de ser diferente, essa maquiagem borrada no rosto, essa alma de gente que gosta de ser quem não pode ser, achando que assim vai se superar. Tudo encanta por uma noite. E ela topa, vai, encara. Por uma noite, e depois desiste. E finge que o coração não dói e fica sem marca. Mesmo que as lágrimas não caiam pelo rosto sempre cheio de maquiagem até mesmo do dia anterior e não escorram, por fim, pelos lábios sempre vermelhos com a ponta de cigarro pendurada; ela chora por dentro, o tempo todo. Até que disfarça bem… Mas ah, aqueles olhos, aqueles olhos não enganam nem bêbado depois da sua pior bebedeira. Qualquer um que olhar bem dentro deles logo percebe - está ali escrita a sua fragilidade e inocência, pra quem quiser ler. Mesmo passando de mão em mão, de cama em cama, de boca em boca. Aqueles olhos não mudam. Está neles registrado, eternamente, o brilho de alguém que tenta ser o que não é e fracassa. E por isso chora, por dentro, com força. Em estado permanente de desespero. E dor. Letícia Loureiro


Mas de verdade eu só queria que alguém falasse para mim: ei, você é bonita, para de se expor tanto, pode ficar quietinha, pode fechar o decote, pode parar com esse riso nervoso, tô reparando em você, você é bonita. Traumas de adolescência são uma merda.

Tati Bernardi