(in)delicadeza de amar.

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quarta-feira, 5 de junho de 2013

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Existem coisas que, sozinhos, não conseguimos mudar. Eu sempre fico triste quando vejo alguém jogado na rua, à margem desse sistema. Mas se eu ficar triste, só triste, eu serei mais uma a aumentar as tristezas no mundo. E a tristeza só consegue nos deixar fracos e inertes. O que o mundo precisa é de um exército de gente feliz, capaz de doar um pouco de si e do que sabe, capaz de fazer a diferença na vida de algumas pessoas. Meus braços não são do tamanho do mundo, mas foram feitos no tamanho exato de abraçar alguém.

 Rita Apoena

terça-feira, 4 de junho de 2013

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Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava deveria existir em algum lugar do planeta. Nem se fosse apenas dentro de mim... Mesmo se ele não existisse em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construí lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas em que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor, e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas.

 Rita Apoena


Sem essa de fazer besteiras às pencas por confundi-las com felicidade, isso é credencial pra ser imbecil. O certo e o errado nascem pra todos. Nada de mostrar meus dentes tortos e urrar na fuça alheia a maior injustiça sobre o cio da terra: a mediocridade.

 Gabito Nunes




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Mesmo num amor de linhas tortas como o nosso, o fim parece um erro, como um ponto final no meio da frase. 

Gabito Nunes
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Me diga que está triste, eu consolo. Me diga que nunca foi tão feliz, eu concordo. Me ame ou me odeie. Me mande pra puta-que-o-pariu ou me convide pra ir com você. Exploda na minha cara ou se derreta na minha mão. Deixa eu te ver morrendo de tanto rir ou com vergonha das olheiras de tanto chorar. Só não me esconda o rosto. Me abrace, me esmurre, me lamba ou me empurre. Só não me balance os ombros. Não me perturba assistir tua dor nem acompanhar teu gás. Te ver mais ou menos realmente me incomoda. Mais ou menos não rende papo, não faz inverno nem verão, não exige uma longa explicação. É melhor estar alegre ou estar triste, mais ou menos é a pior coisa que existe

 Gabito Nunes


Eu quase que não vim. Mas toda vez é a mesma coisa e quando vejo já estou dentro do elevador, prestando atenção na luzinha vermelha trocando de andar. Depois eu fico me perguntando do porquê de vir, mas eu também faria o mesmo, me perguntaria, por que diabos eu não fui? Vou até a cozinha e ponho a chaleira no fogo. Deixei uma caixinha de Royal sabor hortelã por aqui e não estou achando em nenhum armário. Alguém tomou meu chá. Ele não toma chá. Pergunto quem esteve aqui tomando do meu chá e ele não responde. 

Ele não tem nada a dizer sobre isso. Pergunto como pode uma caixinha de chá evaporar e ele não diz nada. Só que estou exagerando. Já estou arrependida. “Depois eu te dou os cinco tostões do maldito chá, gata”, ele diz e eu o mando enfiar os trocados dele no próprio rabo. Não falo mais nada, não tem nada a ver com chá e ele sabe disso. É sobre as outras que vêm aqui. Ele acha que eu sou boba e não sinto o cheiro de vaca nos lençois.

“Então, você veio aqui pra comer e tomar chá ou o quê?”. Na língua dele, “ou o quê” quer dizer ir para o quarto. Digo a ele que não sou uma boneca inflável e ele me responde com um risinho irônico e sacana de “tá bom”. Algumas vezes me pego fantasiando que esse é o jeito dele de mostrar que gosta de mim. Rude, corrosivo, fulminante. Tenho pra mim que todas essas historinhas que ele administra muito bem não passam de uma fuga. No fundo ele precisa que uma garota de coração bom passe suas camisas e dê um jeito nessa cara de menino sujinho. Um dia ele se toca, e eu quero estar aqui pra ver. Por isso não perco uma de vir.

Ele me leva até o quarto pela mão, todo meloso e simpático e convincente. Eu sou maleável como a água e nunca consigo manter meu pé firme do chão. A cama, mais revirada do que eu, não me consola. Está fedendo a suor, cigarro, vinho choco, porra velha e perfume barato. Pra ele está tudo bem, talvez ele precise consultar um otorrinolaringologista, está na cara que ele está com algum problema de olfato. Ou é só caradura mesmo. A segunda hipótese não tem tratamento. Ele adora minha barriga, tem verdadeiro fascínio pelo meu umbigo. Ele vai descendo.

Terminou, ele se sente mais aliviado e feliz por ter gozado num lugar estranho, onde possa vangloriar aos amigos depois e comparar com os vídeos obscenos que eles acessam. Eu nem aproveitei nada, não porque não deu tempo, mas porque não parei de pensar na outra coisa. No chá, nas outras, no corte de cabelo que eu ia sugerir se ele me desse voz de namorada. Ele fica um tempo olhando para o teto, admirado. “Não sei até que ponto vale a pena me debruçar na sua cama, alisar seus cabelos e esperar você sair desse coma sentimental”, eu penso. Aí ele levanta no pulo, se apruma pra tomar uma ducha e nem me convida pra ir junto. Não estou me sentindo legal.

Não é uma questão de puritanismo, é mais uma questão de negociação. Eu adoro sexo, como adoro dinheiro, mas se eu fosse rica detestaria sentir as pessoas se aproximando de mim só por causa disso. Enquanto ele canta no chuveiro, eu fico contando nos dedos as vantagens que estou levando. Não consigo nada. Estou cheia de dedos. O idiota sai do banho colocando a camisa pra dentro das calças. Diz que tem uma formatura e esqueceu de me dizer. “Você achou o quê, que a gente ficaria o resto da noite agarradinhos como namorados? Achei que você estivesse de acordo que isso não é bem a nossa cara”. Isso. Me lambe, me prova, me abocanha. Me mastiga, regurgita e aí me cospe. E ainda tem coragem de arrotar na minha cara.

Aparentemente, é assim que se faz. Mentimos quando queremos muito uma coisa. Mentimos quando não queremos mais uma coisa. Mas tudo bem, a vida é minha, eu deixo ele fazer o que quiser com ela. E pensar que tudo que eu queria era te levar para um passeio, quem sabe um beijo pisando na lua. Mas será meio impossível, se você não aceitar. Ele diz que está atrasado sem escutar meus muxoxos. Cada um faz o seu preço, e o meu foi uma carona idiota de volta pra casa. É menos do que ganha uma puta. Ele economizou um bom dinheiro hoje.

Quando você fez tudo o que foi preciso e ainda assim não foi o bastante, é isso que eu chamo de impossível. Não adianta, é só teimosia, nosso amor só funciona na horizontal. Digo a ele que não preciso de carona merda nenhuma e vou andando até em casa. Eu preciso pensar. Na verdade, eu preciso não pensar. Tenho medo de descobrir coisas que não quero. E não dá outra, no trajeto eu me dou conta que eu sou sim uma garota inflável. Sempre quando eu acabo vindo, no dia seguinte eu me sinto flácida, murcha, vazia, embrulhada e guardada numa gaveta.

Gabito Nunes


segunda-feira, 3 de junho de 2013

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Sim, eu sei.  Pode parecer maluquice,  mas eu vou mesmo desparafusá-las  e arremessá-las no jardim. Mesmo que elas não possam voar, ficarão entre as flores, o devido lugar de borboletas paralíticas. Não suporto mais essa ideia de abrir a janela, levantar os vidros e vê-las ali, disfarçadas de dobradiças.

 Rita Apoena

domingo, 2 de junho de 2013



— E você, por que desvia o olhar?  
(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)  
— Ah. Porque eu sou tímida.

 Rita Apoena







De longe te hei de amar- da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância.
                                                                                   
Cecilia Meireles




Que os sensíveis sejam também protegidos. Que sejam protegidos todos os que veem muito além das aparências. Todos os que ouvem bem pra lá de qualquer palavra. Todos os que bordam maciez no tecido áspero do cotidiano.

Ana Jácomo
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Com o tempo a gente aprende que atenção, carinho e blush tem que ser na medida certa. Se não, a gente acaba de palhaça.

Tati Bernardi




No aprendizado não existe escolha errada.
Marla de Queiroz